A década de 1990 foi particularmente essencial para a implementação das políticas neoliberais em diversas partes do mundo e em especial na América Latina. Este sistema pretende reduzir a participação e a força do Estado à medida que aumenta assim a participação de algumas oligarquias na vida econômica de um país. Para o professor e filósofo estadunidense Noam Chomsky, um dos mais importantes intelectuais de nossa época, “o neoliberalismo é um ataque aberto (…) à democracia. O objetivo é minimizar o Estado e, ao minimizá-lo, se maximiza (…) a tirania particular”.
O avanço do neoliberalismo acabou agravando desigualdades sociais sempre presentes em nosso continente americano e, como resposta a tudo isso, o final dos anos 90 trouxe consigo o início de uma onda de resistência democrática e legítima a este sistema político. Pode ser citado como marco inicial desta “guinada à esquerda” da América Latina a eleição do tenente-coronel reformado do Exército Hugo Chávez Frías como presidente da Venezuela, em1998, com 56% dos votos.
A partir de então, juntamente com a luta para reconstruir a dignidade social do povo venezuelano, o presidente democraticamente eleito passou a sofrer diversos ataques, que culminaram inclusive com um golpe militar em 2002 engendrado pela elite venezuelana. Como comprova o ativista e escritor paquistanês Tariq Ali, o golpe, que durou apenas 48h, foi realizado sob a tutela dos governos espanhol e estadunidense. A convulsão popular trouxe Chávez novamente ao poder.
Juntamente com Hugo Chávez, outros presidentes esquerdistas e populares vão sendo eleitos em nossa América Latina. Em 2005, um pleito histórico ocorre na Bolívia: Evo Morales obtém 54% dos votos e torna-se o primeiro indígena a governar aquele país. Em 2007, tomava posse no Equador mais um governo popular, cujo líder é o economista Rafael Correa. Correa fora eleito em segundo turno, em novembro de 2006, com 57,9% dos votos e também está comprometido com a luta antineoliberal, afirmando que, na América Latina, “a noite neoliberal está chegando a seu fim”.
A reação do império estadunidense aos que contrariam o Consenso de Washington (CW) conta com o auxílio de diversos grupos midiáticos: jornais, revistas e redes de televisão bombardeiam seus noticiários e editoriais com termos que colocam em cheque a democracia dos governos da chamada “nova esquerda” latinoamericana. Já é famoso o editorial do jornal Folha de São Paulo ao avaliar a vitória do “sí” no referendo venezuelano que permitiu ao presidente daquele país candidatar-se a reeleição de maneira ilimitada; o texto equiparou Hugo Chávez a Alberto Fujimori , ex-presidente peruano que se elegeu com suspeitas de fraude e famoso por ser autoritário e violar os direitos humanos em seu país . Além disso, o mesmo editorial chamou de “ditabranda” o período de regime militar entre 1964 e 1985 no Brasil.
Contudo, em um âmbito geral, é possível notar abordagens dissonantes quanto a diferentes governantes ao redor do mundo. Enquanto o venezuelano é chamado de “demolidor”, “coronel” e “autoritário” por pretender recandidatar-se de maneira ilimitada à presidência de seu país, outros recebem tratamento mais brando tanto por parte da Casa Branca quanto por parte da mídia. E exemplos disso não faltam.
Margareth Thatcher, “dama de ferro” e propagadora do neoliberalismo ao lado de Ronald Reagan, foi primeira-ministra do Reino Unido durante 11 anos (1979 – 1990), sendo sucedida pelo também conservador John Major, que permaneceu por 7 anos no cargo (1990 – 1997). Seu sucessor, o sempre aliado da Casa Branca Tony Blair, esteve na posição de primeiro-ministro da Grã-Bretanha por durante consecutivos 10 anos (1997 – 2007). Obviamente, jamais os Estados Unidos e a grande imprensa ao redor do mundo consideram uma ditadura ou uma ameaça à democracia o fato de que em seu maior aliado europeu, o cargo máximo do Poder Executivo pode ser reeleito quantas vezes conseguir, visto que não há limites para a reeleição neste reino parlamentarista.
Na Espanha, Felipe Gonzalez permaneceu no posto de primeiro-ministro durante 14 anos (1982 – 1996) e só saiu devido à derrota de seu partido nas eleições de 1996. Este período em que permaneceu no poder também não representou um fantasma rondando valores democráticos, talvez porque estivesse ligado a multinacionais espanholas e também não representasse uma ameaça aos interesses do império ianque naquela região. Outro caso semelhante foi o de Helmut Kohl, primeiro-ministro da Alemanha Ocidental e posteriormente da Alemanha unificada, permanecendo à frente deste país por ininterruptos 16 anos (1982 – 1998) e também não foi atacado pela Casa Branca como um ditador autoritário.
Os aliados africanos dos EUA também são tratados de maneira não tão hostil quanto a Venezuela. Em Camarões, Paul Biya governa o país desde 1982, ou seja, há 27 anos. No Egito, Mohamed Hosni Mubarak ocupa a presidência desta nação milenar há 28 anos, desde 1981. A pobre e sofrida Angola é governada desde 1979 pelo engenheiro de petróleos pró-EUA José Eduardo dos Santos. E no reduto petrolífero do Gabão, Omar Bongo Ondimba, amigo da Casa Branca, governa o país desde 1967, ou seja, há 42 anos.
Ao atacar a reeleição indefinida proposta por Hugo Chávez e aprovada pela maioria de sua população através de um referendo popular, obtendo pouco mais de 54% dos votos, os EUA contrariam sua própria história, ao se “esquecerem” que até 1945 o país também não possuía limites de reeleições, o que possibilitou que Franklin Delano Roosevelt governasse a maior potência capitalista da face da Terra durante 12 anos (1933 – 1945), por quatro mandatos seguidos.
Analisando todos estes dados, fica então um questionamento: o que leva a figura de Hugo Chávez a ser tão difamada e odiada por parte da grande mídia e do grande império estadunidense? A resposta não está tão longe. É só olhar para trás, para a própria história latinoamericana e relembrar de figuras como Jacobo Arbenz, Salvador Allende e até mesmo João Goulart. Sempre que os interesses das elites nacionais e/ou da Casa Branca são prejudicados, os poderosos não hesitam em caluniar e atacar quem quer que seja. Tudo isso para garantir a manutenção de todos os seus privilégios. Nota-se, finalmente, que quem luta pelo povo, pela igualdade e por justiça social, provavelmente terá que enfrentar um exército midiático extremamente bem treinado, quando não forças armadas reais, prontas para disparar contra o coração daqueles que optam pelos pequenos, pelos pobres e pelos oprimidos.


