O homem que vive em sociedade, ainda mais uma sociedade como esta em que nos localizamos, sofre uma grande carga de pressões e influências. É fato – pelo menos para mim – que a construção de um sujeito se dá histórica e socialmente, ou seja, somos, de uma forma ou de outra, condicionado a ser o que somos, a gostar do que gostamos e também a pensar no que pensamos. Analisando sob esta ótica, nota-se que falar em liberdade é algo um tanto quanto ilusório e até mesmo “impalpável”.
De qualquer maneira, mesmo sob influências tão pesadas como família, religião, escola, televisão e publicidade, em algum rincão de nossa consciência, acabamos formando o que somos, nossa individualidade, nossas crenças, opiniões, enfim, aquilo que nos define enquanto indivíduos. Quando nos vemos fora daquilo que nos é comum, daquilo que fez parte de nossa construção individual, sentimo-nos como estranhos e, devido às condições objetivas que nos levam a tal local – como as necessidades materiais – fica impossível resgatar, dentro de nós, aquilo que fomos um dia, e começamos então a nos desenraizar.
Assim como uma árvore que ao perder suas raízes, tem seus dias contados, também nós, seres humanos, ficamos com nossa identidade a mercê daquilo que nos conecta a nós mesmos. Se perdemos este fio condutor, este cordão umbilical entre o que somos hoje e o que fomos anteriormente, estamos fadados a fenecer.
A situação exposta anteriormente fica clara no Ocidente ao se analisar o processo de colonização engendrado pelas grandes potências européias durante a Idade Média e pelos Estados Unidos da América no século XX. Os povos originários da América, tendo violados seus mínimos direitos, sendo aculturados, catequizados, cooptados pelos conquistadores a traírem suas tradições, são um bom exemplo desta triste constatação. Durante mais de 500 anos de um etnocídio declarado e diversas humilhações, a luta indígena se mescla às demais “minorias na hora de se calar e maiorias na hora de sofrer”, como bem frisou o Subcomandante Marcos, e a palavra resistência está mais viva do que nunca, como tradução direta da vida destes povos, diferentes em sua origem e até mesmo em seus anseios, mais ligados pelo desejo de mudança, de reconhecimento, de igualdade e de inclusão.
Contudo, não se deve confundir inclusão com unidade. Faz-se necessário a construção de um mundo que possa ser ao mesmo tempo, como frisam o tempo todo os zapatistas mexicanos, uno e diverso e onde caibam muitos mundos. Tratando a todos como iguais que somos, porém aceitando e respeitando nossas diferenças, trabalhando para que elas não sejam empecilhos à vida comum que o homem aprendeu a levar em socidade. Enfim, é preciso aprender a olhar ao nosso redor, aprender com nossa realidade, respeitar a realidade alheia e sempre lutar pela mudança, acreditar na mudança, pois, citando o Subcomandante zapatista mais uma vez, “que grande mudança não foi chamada de utopia na véspera?”.